De um lado amigos machos sozinhos. Do outro, as meninas. Casaram e quebraram a cara ou são solteiros eternos e estão na busca. Batem em minha porta atrás uns dos outros. Devem me achar legal. Devem supor que uma pessoa legal tem amigos legais. Alguns poucos amigos legais avulsos, disponíveis, possíveis. Estão corroídos pela solidão e querem, uns e outros, exatamente o mesmo. Eu, na minha ingenuidade prática de capricorniano, penso que basta colocá-los em contato. E tento. E eles esperneiam. Querem saber se o outro vale mesmo a pena. É gordo? Fala errado? Cavaletes de madeira. Pobres das pontes que precisam superar tantos cavaletes de madeira. E eu digo aos amigos que casei com o homem errado porque tive a sorte de me distrair. Estava massacrada demais, tinha bebido demais, e não tranquei a porta. Então entrou um cara nada a ver. Bem vestido, com um carrão, advogado, sedutor de plantão, o avesso do avesso do avesso. O meu manual da felicidade dizia: homem simples e sensível a escolher entre músico, artista plástico, homem do teatro, cinema, ou, no mínimo, arquiteto. Mas eu estava massacrada demais, tinha bebido demais e deixei o impróprio sujeito passar pela varanda, cruzar a sala, avançar pela cozinha e ir parar lá naquele quartinho dos fundos onde a gente guarda nosso ursinho de pelúcia e nosso maníaco da serra elétrica. Quando acordei de ressaca, tentei sair correndo, largar a mão dele, não dava mais. O sujeito errado tinha me tocado em algum lugar impossível e a impressão digital dele estava grudada na minha carne. E pulsava. Tentamos nos desvencilhar um do outro, em nome dos modelos e protótipos de felicidade que tínhamos. De algum jeito ele era gordo e eu falava errado. E ficamos juntos contra as possibilidades, contra as expectativas. Não era funcional, não era ideal, muitas vezes nem era confortável... só podia ser amor. O meu príncipe modelo morreu atropelado por um BMW prateado. E eu, que sou pós-graduada em criar personagens inclusive com os defeitos que me interessam, jamais poderia ter imaginado de longe alguém como este grande companheiro que tenho. As pobres réguas que criamos para nos defender são boias que nos prendem à superfície do outro, à muitas vezes enganosa superfície do outro. E os amigos provavelmente não conhecerão realmente as amigas e seguirão lindos, deliciosos, solitários, cada um em sua página inexpugnável da minha agenda. Precisam sofrer mais, e beber mais, eu penso.
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